O Que Faz Falta é Agitar a Malta
Primeiro momento de um programa que culmina em 2019 na Porto Design Biennale, com uma exposição mais ampla e documentada sobre artefactos gráficos produzidos no contexto de ações de protesto, esta mostra apresenta este espólio único no armazém que o Ephemera ocupa na Baía do Tejo, Parque Empresarial do Barreiro, no complexo da antiga CUF.
Associando simbolicamente o território industrial da Margem Sul do Tejo, estreitamente ligado à história das lutas operárias, e as comemorações do 25 de Abril, a abertura temporária do armazém ao público representa não só um momento de partilha — de um acervo, de uma atividade, de memória coletiva — como uma chamada à participação no esforço de recoleção destes objetos. À dimensão simbólica já apontada soma-se o facto de este ano se assinalarem os 50 anos do Maio de 68, contexto de experiências singulares de comunicação gráfica como a que se viveu no Atelier Populaire, ainda hoje modelo formal, discursivo e de dinâmicas de produção colaborativas.
A exposição, apresentada no Parque Empresarial do Barreiro de 24 de abril a 30 de junho de 2018, tem curadoria do historiador, professor e politólogo José Pacheco Pereira e de Helena Sofia Silva, investigadora em Design e docente da ESAD.
A exposição O Que Faz falta é Agitar a Malta — Cartazes do Arquivo Ephemera assume-se como a primeira iniciativa da parceria estabelecida entre a Baía do Tejo e a Ephemera, que prevê o desenvolvimento regular de actividades culturais, abertas e disponíveis à comunidade. Consolida-se também desta forma o cluster de indústrias criativas e da área do conhecimento que a Baía do Tejo tem vindo a promover nos seus parques.
Com cerca de 200.000 títulos, o arquivo/biblioteca Ephemera tem como objetivo divulgar os espólios, acervos, livros, periódicos, manuscritos, panfletos, fotos, objetos que pertencem ao arquivo pessoal de José Pacheco Pereira, tornando-os acessíveis a todos. Pelos seus objetivos e pela sua ação, é considerado o arquivo privado mais público de Portugal. Recolhe, trata, inventaria e divulga materiais — documentos, cartazes, imagens, fotografias, objetos, depoimentos… — sobre a história cultural, social, económica e política de Portugal e internacional, com enfoque nas manifestações, protestos e formas de conflito social e político, matéria de que trata a exposição agora apresentada no Barreiro.
Como expressões de protesto e resistência, os cartazes que agora se dão a conhecer representam a contribuição do cidadão comum, muitas vezes anónimo, para a vida política e democrática, constituindo-se como documentos de uma história do povo, a ser escrita também a partir deles. Representam a necessidade de dar eco a uma voz, de a inscrever no discurso público, de traduzir uma revolta, de reclamar visibilidade. Representam urgências e intensidades, pelo que muitos deles não são mais do que inscrições tensas e rápidas sobre suportes toscos, improvisados, literalmente recuperados do lixo no rescaldo das manifestações onde se levantaram. ‘O Que Faz falta é Agitar a Malta’ é verso de uma canção de intervenção de Zeca Afonso, um dos muitos que se podem ler nos cartazes produzidos pelo coletivo ‘As Toupeiras’ para homenagear a memória da Revolução de Abril, convocando histórias, personagens e o entusiasmo de tantas outras revoluções que ambicionaram mudar o mundo. Emergindo como as toupeiras, malta agitada tem-se movido contra a austeridade, a desigualdade, a exploração petrolífera, o assédio sexual ou os trágicos incêndios do último verão. E isso faz muita falta.
— José Pacheco Pereira e Helena Sofia Silva, curadores da exposição
— ver vídeo