Cuidar Selvagem

Cuidar Selvagem

Arquiteturas de Amor e Correspondência

Cuidar Selvagem toma as ideias de cuidar e de responsabilidade nas práticas espaciais, para investigar arquiteturas do encontro, da atenção e do cuidado. A exposição reúne uma seleção de histórias de amor, correspondência e compromisso que partilham uma ética de cuidado com o possível e o impossível, movidas por uma força entrópica que resiste ao controle burocrático e ao derrotismo.

Inspirada no entendimento de Jack Halberstam do conceito de ‘selvagem’ (wild), enquanto ontologia de resistência e de “espaço heterogéneo de poder estético”, a exposição reúne histórias de práticas que contribuem para fazer progredir a profusão de cuidado e de amor, no e sobre o planeta, como forma de resistir ao cinismo e à irresponsabilidade tóxica.

Combinando perspetivas críticas, ficcionais, situadas e performativas, estas histórias vão abordar a interação entre as matérias do cuidado nas suas formas nominais e verbais, compreendendo o cuidar como um fazer, enquanto ética situada e política da arquitetura, explorando assim o delicado poder da partilha anárquica: uma escuta ativa, um presente generoso e um encontro aberto.

Cuidar Selvagem visa religar o nosso entendimento do cuidar, repensando ‘o selvagem’ enquanto modo de (des)conhecer e renovar a nossa capacidade de assombro, dentro de uma relação corpo-a-corpo com o mundo e atravessando formas de vida além do humano.

Exposição

A exposição apresenta “histórias” através de textos de vários tipos, duração e registos, acompanhadas por imagens que captam algumas das suas principais dimensões. As histórias principais estão impressas em painéis grandes e verticais colocados ao nível do olhar na sala principal da exposição. Para complementar estas histórias centrais há outros textos e imagens apresentados nos níveis acima e abaixo das histórias principais, concebidos de forma lateral como histórias paralelas imateriais e materiais, respetivamente.

São acrescentados hashtags a grande parte dos conteúdos apresentados para uma melhor contextualização da história na paisagem de “coisas selvagens” que o projeto procura esboçar.

A exposição oferece também uma seleção de filmes e clipes como exemplos precisos do tipo de “selvajaria cuidadora” que orienta algumas das histórias, como expansões além dos limites definidos pelo nosso próprio projeto, contribuindo para criar uma compreensão diversa e instável da “selvajaria” e do “cuidado selvagem”.

 

Horário:

Museu da Cidade — Palacete dos Viscondes de Balsemão — Triplex, Porto

Ter-Dom: 10:00 - 17:30

Fecha às segundas e feriados

Wild Talks

A exposição é complementada com um programa de encontros paralelos com alguns dos participantes nas histórias reunidas e com uma seleção de convidados comprometidos com pensar e trabalhar “coisas selvagens”. Estes encontros são conversas abertas entre convidados e curadores em torno do “cuidar selvagem”. Todas as quintas-feiras, no decorrer da exposição, haverá uma “conversa selvagem” que é possível seguir através do canal de Youtube da Porto Design Biennale. As conversas incluem Pedro Costa, Sofia Neuparth, Marco Casagrande, Aida Sánchez de Serdio, Jack Halberstam e Tomi Hilsee, por esta ordem.

 

Wild Talks | Pedro Costa

17 junho, 17h30

Cinema Trindade, Porto

 

Lemos o trabalho de Pedro Costa na chamada Trilogia das Fontainhas como uma forma incrível de atenção e resistência situadas, e também como um exemplo de “intravenção” espacial, que coloca as vidas das pessoas e dos habitantes acima de tudo e se envolve paciente e amorosamente com o seu fluir. Os filmes de Pedro Costa oferecem aquelas que são talvez as histórias que de modo mais exato correspondem ao conceito de “cuidar selvagem” que tentamos explorar, com o lento desenvolvimento das amizades e a compreensão situada que serve de base e constitui o seu trabalho cinematográfico na área. O nosso encontro com Pedro pretende focar-se no trabalho em torno da Trilogia das Fontainhas e a sua visão sobre o amor, o cuidado, a demora e a correspondência como formas de engajamento, não apenas no processo da realização de filmes, mas em relação à vida no sentido mais geral.

 

Pedro Costa é um realizador e escritor português. Estudou História na Universidade de Lisboa e trabalhou como assistente de Jorge Silva Melo, Vítor Gonçalves e João Botelho. Estreou-se na realização aos 30 anos com O Sangue, que marcou o início de uma obra notável e altamente elogiada, frequentemente centrada em pessoas e vidas nas margens da sociedade. Recebeu o France Culture Award (Foreign Cineaste of the Year) no Festival de Cinema de Cannes pelo filme O Quarto de Vanda. Juventude em Marcha foi selecionado para a edição de 2006 de Cannes e arrecadou o prémio Independent/Experimental, da Los Angeles Film Critics Association, em 2008. Cavalo Dinheiro recebeu o Leopardo para Melhor Realizador em 2014 e Vitalina Varela recebeu o Leopardo de Ouro para Melhor Filme em 2019, ambos no Festival de Cinema de Locarno.

Wild Talk | Sofia Neuparth

25 junho, 18h00

Online, Porto

 

Sofia Neuparth é uma dançarina, investigadora e coreógrafa de Lisboa, responsável pela direção do CEM – Centro em Movimento, um espaço vivo para a criação, pesquisa e educação da dança e do movimento.

Wild Talks | Marco Casagrande

1  julho, 18h00

Online com transmissão em direto no YouTube da Porto Design Biennale

 

Marco Casagrande tem trabalhado desde há muitos anos em projetos espaciais nos limites da arquitetura, arte, pedagogia e antropologia cultural, sempre imbuído de um cuidadoso engajamento com os ambientes e situações em que trabalha, mantendo uma abordagem selvagem/aberta e um profundo respeito pela magia no processo de fazer e de construir. Estamos entusiasmados por debater com ele sobre o poder do “selvagem”, quer através do seu fantástico trabalho, quer através do seu olhar sobre as propostas da exposição. A nossa conversa com Marco Casagrande centrar-se-á primeiramente nas suas experiências e histórias relativamente a dois dos projetos principais: uma pequena e efémera sauna nómada; e a maior e mais duradoura Ruin Academy, ambas envolvendo várias dimensões “selvagens” e correntes pedagógicas.

 

Marco Casagrande é um arquiteto, bio-urbanista e teórico social finlandês. Atualmente é professor na Bergen School of Architecture na Noruega. Desde os primeiros momentos da sua carreira começou a misturar a arquitetura a outras disciplinas da arte e da ciência, acabando por concretizar uma série de instalações de arquitetura com consciência ecológica em todo o mundo. Para ele os arquitetos são xamãs da projetação que se limitam a interpretar o que lhes transmite a natureza maior da consciência partilhada.

Wild Talks | Jack Halberstam

8 julho, 18h00

 

Além de belo, inovador e completamente “selvagem”, o trabalho de Jack é uma das principais referências da exposição e inspirou e informou intervenções anteriores e as linhas de trabalho que conduziram até aqui. É por isso uma honra e uma aventura entusiasmante ter a oportunidade de partilhar uns momentos com ele enquanto se debatem coisas selvagens, a destituição, o desfazer, o desaprender, bem com as relações que estas coisas podem ter com as arquiteturas de amor e correspondência. É maravilhoso podermos levar este encontro a cabo na vida real, encontrando-nos fisicamente no Porto apesar da atual insistência no “distanciamento social” e na consequente erosão da intimidade e do sentimento de unidade.

 

Jack Halbertam é professor de Inglês e de Literatura Comparada no Instituto de Pesquisa em Mulheres, Género e Sexualidade da Columbia University. Halberstam é autor de vários livros, entre eles Female Masculinity (Duke UP, 1998), In A Queer Time and Place (NYU Press, 2005), The Queer Art of Failure (Duke UP, 2011), Gaga Feminism: Sex, Gender, and the End of Normal (Beacon Press, 2012) e, mais recentemente, Wild Things: The Disorder of Desire (Duke UP, 2020).

 

Wild Talks | Aida Sánchez de Serdio

15 de julho, 18h00

Online com transmissão em direto no YouTube da Porto Design Biennale

 

Durante décadas o trabalho de Aida funcionou nos limites da colaboração e da fricção, muitas vezes em relação com o desenvolvimento de pedagogias críticas e modos de aprendizagem conjunta com pessoas profundamente engajadas com condições situadas e específicas, amplamente associadas às práticas e aos processos artísticos. Há um cerne selvagem em todo o seu trabalho que nos inspira realmente e queremos simplesmente conversar com ela e saber mais. Aida acaba de publicar um livro sobre pedagogias artísticas não-afirmativas que invocam a “imperfeição” e a incerteza como vetores cruciais no seu entendimento da aprendizagem conjunta e estamos muito entusiasmados para discutir mais amplamente e ouvir as suas opiniões sobre o conceito de “cuidar selvagem” que esta exposição propõe.

 

Aida Sánchez de Serdio é uma educadora, investigadora e trabalhadora cultural nas áreas da cultura visual, pedagogia e práticas artísticas colaborativas. Atualmente é professora assistente na licenciatura em Artes da Universitat Oberta de Catanunya; anteriormente trabalhou como consultora no departamento de Educação e Públicos no Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía em Espanha e como docente na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Barcelona e na Umeå School of Architecture na Suécia. Colaborou e integrou como membro uma série de projetos educacionais e culturais como Friction Pedagogies, na Fundacio Joan Miro, e Contact Zone, no La Virreina Centre de la Imatge, em Barcelona. O seu principal campo de pesquisa são as práticas colaborativas no âmbito das artes e da cultura, entendidas como espaço de produção de conhecimento, debate político e transformação social.

 

Wild Talks | Tomi Hilsee

22 de julho, 18h

Online com transmissão em direto no YouTube da Porto Design Biennale

 

Tomi tem estado envolvidx com a arquitetura, o design, a história, a ocupação colaborativa e uma miríade de projetos selvagens que implicam cuidar e amar (com) os outros. Recentemente levou a cabo um projeto experimental para iniciar e desenvolver “a torre do amor”, uma construção de madeira com materiais recuperados destinada a suster-nos e a facilitar várias formas de aprendizagem e intimidade. Estamos muito felizes por podermos encontrar-nos e falar sobre modos de fazer, cuidar selvagem, colaboração, os limites da arquitetura e a violência da dominação espacial. Esperamos que haja ainda tempo para algumas reflexões sobre a memória, a perda e o luto, bem como para discutir algumas das propostas integradas no projeto Wild Care.

 

Tomi Hilsee é orgulhosamente pouco sérix tem estado ocupadx a encontrar-se com amigxs fora de horas, no escuro e na lama, algo a que chamaria uma política da resistência e do engajamento. Atualmente, Tomi é docente na Willem de Kooning Academy em Roterdão e colabora nos workshops Doe-Het-Zelf no Norte de Roterdão, nos Países Baixos.